quartas-feiras
Em uma quarta-feira chuvosa e cinza, ele acordou com o despertador, lavou o rosto e foi para cozinha preparar o seu café. Colocou duas xícaras na mesa, pegou o jornal do armário, abriu a janela o suficiente para a brisa entrar. Quando foi ligar a sua máquina de café retrô, no entanto, a falta de resposta do aparelho abriu um buraco em seu peito que o deixou sem respirar por alguns minutos.
Às vezes estamos em uma rota de colisão e nem percebemos.
Sentindo as mãos formigando, tentou continuar com sua manhã.
Não conseguiu regar suas avencas nem suas samambaias, esqueceu de esperar a água do chuveiro ficar na temperatura certa, por algum motivo não acertou o nó da gravata. Pisou de meia em um molhado no banheiro, mas não tinha mais pares limpos para usar. Sua manhã meticulosamente cronometrada e planejada em um fluxo contínuo estava arruinada.
Poucas coisas na vida deixam a gente assim, completamente perdidos. Os olhos olhavam mas não viam, o sangue corria nos ouvidos, e o corpo pesava toneladas. Ele não soube quanto tempo passou, só percebeu que de repente a hora do trabalho já se fora.
Colocou a chave do carro no bolso e a máquina de café embaixo do braço - ele sempre via uma lojinha de uma porta só espremida entre duas padarias, cheia de bugigangas amontoadas - algumas de uns 10 anos atrás - e uma placa com luzes neon escrito "Conserta".
Em seu transe sufocante, saiu a pé.
A chuva caía sobre si mesmo - e sobre a cafeteira – mas ele não registrava o molhado frio, duvidava até de que corpo tivesse. Dentro dele uma outra entidade controlava suas ações enquanto sua mente estava em pane, seu subconsciente a única barreira entre seu corpo e um atropelamento ao atravessar as ruas movimentadas sem levantar a cabeça.
Dobrou a esquina da lojinha de conserto, trombou com uma senhora que andava lentamente travando o caminho, ignorou um pedinte encostado no muro. Passou em frente à primeira padaria sem nem olhar para o lado, desviou da fila na calçada e contornou pela rua o carrinho de um ambulante. Com o coração batendo nas têmporas, chegou em frente à loja e deu de cara com uma porta fechada.
Pela segunda vez em poucas horas, encarou o nada sem reação.
Subitamente, voltou a ter corpo e sentiu tudo, um rio transbordando após a abertura das comportas.
A água gelada no rosto, o frio nas costas, sua camisa encharcada grudando em seus braços e torso. A calça jeans pesada, o puxando cada vez mais para baixo, acorrentando suas pernas. O sapato social pegajoso e fazendo barulho enquanto se balançava de um pé para o outro. A chave do carro, inútil em seu bolso, cortando sua coxa. O desconforto no braço após carregar uma cafeteira grande e desengonçada rua afora.
A incapacidade queimava seus pulmões - tinha falhado em pensar no que fazer caso isso acontecesse. Quando a cafeteira parasse de funcionar. Porque ela pararia, tudo para um dia. Não importa se você é um aparelho ou uma pessoa.
Enquanto estava parado sob a chuva, segurando uma cafeteira quebrada, com uma gravata torta e sapatos transbordando, em alguma hora de uma manhã de quarta-feira, ouviu uma voz chamar seu nome.
Quanto tempo! Sim já faz um tempo. Como estão as coisas? Estão bem. Como você está?... Bem também. Por que tá parado assim na chuva? Não consegui tomar café.
Que bom que te encontrei assim, hoje ainda por cima. Por que hoje? Sim, você sabe... tá fazendo um ano desde...
...ah sim, não tinha percebido.
... eu que dei essa cafeteira pra ela no casamento de vocês, ela sempre gostou de coisas antigas, desde criancinha. Isso é verdade. Se você quiser, posso consertar pra você - vamos lá em casa, te ajudo com essa coisa velha e a gente toma um café juntos enquanto a chuva não passa, que tal?
.
.
.
Ao retornar pra casa naquela noite, com uma cafeteira funcional debaixo do braço, ele foi direto para a cozinha ligá-la na tomada novamente e colocar pra fazer uma receita de café com leite em pó, igual ela gostava.
Regou as plantas seguindo as instruções de um bilhete gasto pelo tempo. Trocou de roupa e colocou as sujas na máquina de lavar, ouvindo um áudio explicativo de mais de um ano.
Voltou para a cozinha e parou.
Ao ouvir a cafeteira apitando, foi até a mesa, guardou a segunda xícara de volta no gabinete, pegou a sua própria e serviu-se.
Sentou-se à mesa e olhou o jornal, já amarelado e com uma cruzadinha inacabada.
Tomou um gole do café e leu a próxima dica da vertical.
Às vezes estamos em uma rota de colisão e nem percebemos.
Sentindo as mãos formigando, tentou continuar com sua manhã.
Não conseguiu regar suas avencas nem suas samambaias, esqueceu de esperar a água do chuveiro ficar na temperatura certa, por algum motivo não acertou o nó da gravata. Pisou de meia em um molhado no banheiro, mas não tinha mais pares limpos para usar. Sua manhã meticulosamente cronometrada e planejada em um fluxo contínuo estava arruinada.
Poucas coisas na vida deixam a gente assim, completamente perdidos. Os olhos olhavam mas não viam, o sangue corria nos ouvidos, e o corpo pesava toneladas. Ele não soube quanto tempo passou, só percebeu que de repente a hora do trabalho já se fora.
Colocou a chave do carro no bolso e a máquina de café embaixo do braço - ele sempre via uma lojinha de uma porta só espremida entre duas padarias, cheia de bugigangas amontoadas - algumas de uns 10 anos atrás - e uma placa com luzes neon escrito "Conserta".
Em seu transe sufocante, saiu a pé.
A chuva caía sobre si mesmo - e sobre a cafeteira – mas ele não registrava o molhado frio, duvidava até de que corpo tivesse. Dentro dele uma outra entidade controlava suas ações enquanto sua mente estava em pane, seu subconsciente a única barreira entre seu corpo e um atropelamento ao atravessar as ruas movimentadas sem levantar a cabeça.
Dobrou a esquina da lojinha de conserto, trombou com uma senhora que andava lentamente travando o caminho, ignorou um pedinte encostado no muro. Passou em frente à primeira padaria sem nem olhar para o lado, desviou da fila na calçada e contornou pela rua o carrinho de um ambulante. Com o coração batendo nas têmporas, chegou em frente à loja e deu de cara com uma porta fechada.
Pela segunda vez em poucas horas, encarou o nada sem reação.
Subitamente, voltou a ter corpo e sentiu tudo, um rio transbordando após a abertura das comportas.
A água gelada no rosto, o frio nas costas, sua camisa encharcada grudando em seus braços e torso. A calça jeans pesada, o puxando cada vez mais para baixo, acorrentando suas pernas. O sapato social pegajoso e fazendo barulho enquanto se balançava de um pé para o outro. A chave do carro, inútil em seu bolso, cortando sua coxa. O desconforto no braço após carregar uma cafeteira grande e desengonçada rua afora.
A incapacidade queimava seus pulmões - tinha falhado em pensar no que fazer caso isso acontecesse. Quando a cafeteira parasse de funcionar. Porque ela pararia, tudo para um dia. Não importa se você é um aparelho ou uma pessoa.
Enquanto estava parado sob a chuva, segurando uma cafeteira quebrada, com uma gravata torta e sapatos transbordando, em alguma hora de uma manhã de quarta-feira, ouviu uma voz chamar seu nome.
Quanto tempo! Sim já faz um tempo. Como estão as coisas? Estão bem. Como você está?... Bem também. Por que tá parado assim na chuva? Não consegui tomar café.
Que bom que te encontrei assim, hoje ainda por cima. Por que hoje? Sim, você sabe... tá fazendo um ano desde...
...ah sim, não tinha percebido.
... eu que dei essa cafeteira pra ela no casamento de vocês, ela sempre gostou de coisas antigas, desde criancinha. Isso é verdade. Se você quiser, posso consertar pra você - vamos lá em casa, te ajudo com essa coisa velha e a gente toma um café juntos enquanto a chuva não passa, que tal?
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Ao retornar pra casa naquela noite, com uma cafeteira funcional debaixo do braço, ele foi direto para a cozinha ligá-la na tomada novamente e colocar pra fazer uma receita de café com leite em pó, igual ela gostava.
Regou as plantas seguindo as instruções de um bilhete gasto pelo tempo. Trocou de roupa e colocou as sujas na máquina de lavar, ouvindo um áudio explicativo de mais de um ano.
Voltou para a cozinha e parou.
Ao ouvir a cafeteira apitando, foi até a mesa, guardou a segunda xícara de volta no gabinete, pegou a sua própria e serviu-se.
Sentou-se à mesa e olhou o jornal, já amarelado e com uma cruzadinha inacabada.
Tomou um gole do café e leu a próxima dica da vertical.
Amo demais esse texto 💜
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