eu sou metal

 

"Você chega perto do arcano 5 de Espadas e faz a seguinte pergunta:
- quem eu devo ser agora?"


"Quem eu devo ser agora?" Eu te pergunto.

Pergunto porque preciso de uma resposta. Pergunto porque preciso desesperadamente que alguém olhe para mim e me diga quem eu devo ser.

 

Eu, que não sei quem fui - tantas e nenhuma, todas e nada. A aluna perfeita que nunca terminou nada do que começou. A filha exemplar que ainda é filha, mesmo quando não deveria mais ser. A amiga fiel que deixou todos para trás. A companheira devota que desistiu antes do fim.

 

Eu, que não sei quem sou. Existo no vácuo dos que já foram, no rastro de um mundo que corre enquanto rastejo. Um corpo disforme e amorfo à deriva no espaço, parado no tempo enquanto o tempo voa, sem forma, sem vida, sem som, sem guia.

 

Só sei que tentando ser tudo nunca fui nada - nem aluna nem filha, nem amiga nem companheira. Tentando ser pelos outros nunca fui por mim - nem por eles.

 

O que veriam se me vissem agora?

 

Veriam a imensidão de nada que preenche meus ossos? Veriam a falta em meus olhos? O vazio em minhas palavras?

 

Quem eles veriam?

 

Um rascunho nunca finalizado? Uma vida sempre no futuro do pretérito? Veriam o que eu vejo quando me olho no espelho?

 

"Quem eu devo ser agora?", te pergunto.

 

Te pergunto porque não sei quem fui.

Te pergunto porque não sei quem sou.

Te pergunto porque não sei se quero ser.



(Texto aquecimento para a Oficina Escrita com Tarot, da brilhante Denise Aparecida da Silva)


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